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02 junho, 2010

Você é Hands-on?



Vi um anúncio de emprego. A vaga era de Gestor de Atendimento Interno, nome que agora se dá à Seção de Serviços Gerais. E a empresa exigia que os interessados possuíssem - sem contar a formação superior - liderança,criatividade, energia, ambição, conhecimentos de informática, fluência em inglês e não bastasse tudo isso, ainda fossem HANDS ON. Para o felizardo que conseguisse convencer o entrevistador de que possuía essa variada gama de habilidades, o salário era um assombro: 800 reais. Ou seja, um pitico.

Não que esse fosse algum exemplo fora da realidade. Ao contrário, é quase o paradigma dos anúncios de emprego. A abundância de candidatos permite que as empresas levantem cada vez mais a altura da barra que o postulante terá de saltar para ser admitido.

E muitos, de fato, saltam. E se empolgam. E aí vêm as agruras da super-qualificação, que é uma espécie do lado avesso do efeito pitico... Vamos supor que, após uma duríssima competição com outros candidatos tão bem preparados quanto ela, a Fabiana conseguisse ser admitida como gestora de atendimento interno.. E um de seus primeiros clientes fosse o seu Borges, Gerente da Contabilidade.

Seu Borges: - Fabiana, eu quero três cópias deste relatório.

Fabiana: - In a hurry!

Seu Borges: - Saúde.

Fabiana: - Não, Seu Borges, isso quer dizer "bem rapidinho". É que eu tenho fluência em inglês. Aliás , desculpe perguntar, mas por que a empresa exige fluência em inglês se aqui só se fala português?

Seu Borges: - E eu sei lá? Dá para você tirar logo as cópias?

Fabiana: - O senhor não prefere que eu digitalize o relatório? Porque eu tenho profundos conhecimentos de informática.

Seu Borges: - Não, não.. Cópias normais mesmo.

Fabiana: - Certo. Mas eu não poderia deixar de mencionar minha criatividade. Eu já comecei a desenvolver um projeto pessoal visando eliminar 30% das cópias que tiramos.

Seu Borges: - Fabiana, desse jeito não vai Dar!

Fabiana: - E eu não sei? Preciso urgentemente de uma auxiliar.

Seu Borges: - Como assim?

Fabiana: - É que eu sou líder, e não tenho ninguém para liderar. E considero isso um desperdício do meu potencial energético.

Seu Borges: - Olha, neste momento, eu só preciso das três cópias.

Fabiana: - Com certeza. Mas antes vamos discutir meu futuro... Seu Borges: - Futuro? Que futuro?

Fabiana: - É que eu sou ambiciosa. Já faz dois dias que eu estou aqui e ainda não aconteceu nada.

Seu Borges: - Fabiana, eu estou aqui há 18 anos e também não me aconteceu nada!  

Fabiana: - Sei. Mas o senhor é hands on?

Seu Borges: - Hã?  

Fabiana: - Hands on....Mão na massa.

Seu Borges: - Claro que sou!  

Fabiana: - Então o senhor mesmo tira as cópias. E agora com licença que eu vou sair por aí explorando minhas potencialidades. Foi o que me prometeram quando eu fui contratada.

Então, o mercado de trabalho está ficando dividido em duas facções: 


1 - Uma, cada vez maior, é a dos que não conseguem boas vagas porque não têm as qualificações requeridas. 


2 - E o outro grupo, pequeno, mas crescente, é o dos que são admitidos porque possuem todas as competências exigidas nos anúncios, mas não poderão usar nem metade delas, porque, no fundo, a função não precisava delas. 


Alguém ponderará - com justa razão - que a empresa está de olho no longo prazo: sendo portador de tantos talentos, o funcionário poderá ir sendo preparado para assumir responsabilidades cada vez maiores. 


Em uma empresa em que trabalhei, nós caímos nessa armadilha. Admitimos um montão de gente superqualificada. E as conversas ficaram de tão alto nível que um visitante desavisado confundiria nossa salinha do café com a Fundação Alfred Nobel.

Pessoas superqualificadas não resolvem simples problemas! Um dia um grupo de marketing e finanças foi visitar uma de nossas fábricas e no meio da estrada, a van da empresa pifou. Como isso foi antes do advento do milagre do celular, o jeito era confiar no especialista, o Cleto, motorista da van. E aí todos descobriram que o Cleto falava inglês, tinha informática e energia e criatividade e estava fazendo pós-graduação... só que não sabia nem abrir o capô. Duas horas depois, quando o pessoal ainda estava tentando destrinchar o manual do proprietário, passou um sujeito de bicicleta. Para horror de todos, ele falava "nóis vai" e coisas do gênero. Mas, em 2 minutos, para espanto geral, botou a van para funcionar. Deram-lhe uns trocados, e ele foi embora feliz da vida. Aquele ciclista anônimo era o protótipo do funcionário para quem as Empresas modernas torcem o nariz - 
O que é capaz de resolver, mas não de impressionar.
 
Este artigo foi retirado do livro " Clássicos do mundo corporativo", Pág. 167, Título: "Hands-on", escrito por Max Gehringer.

2 comentários:

Paulo disse...

Caro Gehringer,

Concordo em grande parte com seu texto. Confesso que passo por uma situação semelhante e não há nada mais desmotivante para um profissional do que ser subaproveitado. Tenho um bom currículo mas como a "Fabiana" não uso nem 10% dele na empresa na qual trabalho. Porém, classifico-me com um "Hands On".
Acredito que existam milhares de profissionais no mercado que sejam capazes de impressionar e de resolver também. Infelizmente hoje está se tornando cada vez mais raro as empresas darem o devido valor a esse tipo de colaborador. Acho até que elas tem dificuldades em identificá-los já que para muitas um bom currículo assusta e não atrai, pois temem ter que pagar bons salários.

Abraço.
Paulo Contrucci
www.twitter.com/pcontrucci

Operária Milena disse...

Caro Paulo,

Muito obrigada pelo seu comentário e observação. Acho que nosso papel, como funcionários, é mesmo desenvolver nossas competências para que possamos impressionar tanto por nossas habilidades como por nossa atitude (Hands On).

Quero deixar claro, no entento, que não foi o Max Gahringer pessoalmente que publicou esse artigo neste blog. Ele não tem vínculo nenhum com esse espaço, nós o admiramos e utilizamos seu conhecimento como referência, assim como todo o mercado. Max Gehringer é administrador de empresas e escritor, autor de diversos livros sobre carreiras e gestão empresarial.
Tornou-se conhecido por suas colunas em várias revistas, na rádio CBN e no programa Fantástico, da TV Globo.

Nosso objetivo é "caçar" informações relevantes e publicá-las aqui criando assim um espaço para discussões, por isso agradeço imensamente por sua iniciativa! Continue nos ajudando com opiniões, sugestões e referências pessoais!

Um grande abraço,

Das Formigas desde Formigueiro!
PS: Já atualizamos o post de forma a deixar claro os créditos do texto.

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